segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Como vou saber da fome?
O pão não me falta, a necessidade não me aflige.
Repito: como vou saber da fome?
Os olhos gordos me cobram tais memórias,
me cobram, com esperança, um sentimento que não tenho.
Eu em um belo carro irritado com o trânsito. Eu em belas roupas,
bom relógio, celular ( mil reais de inutilidade tecnológica).
Os olhos gordos pedem.
O que vou dizer?
Estou com medo de ser roubado.
Escondo o relógio, o celular. Digo:
“NÃO TENHO!”. Fico aliviado.
Não tem mais olhos gordos em mim.
Engato primeira e vou. Não olho prá trás.
Uma mulher gorda grita:
- Acuda, meu Deus!
Os iguais a ele passam. Param. Chamam a ambulância. Chega. Demora, mas chega. Aparecem notícias sobre o quase defunto. Dizem as boas línguas que ele é camelô, outras falam em professor, comerciário, bancário. No fim era mesmo um desempregado. Levava uma pasta com currículos xerocados, uma fotografia de um menino raquítico e desdentado, cinqüenta reais (há dúvidas quanto ao dinheiro), um jornal marcado nos classificados. O traje era humilde. Sapatos de marca chinfrim, blusa xadrez de botões, calça jeans surrada.
Os urubus da televisão logo chegam. Naquele dia não havia chacinas para cobrir, não havia estupros, não havia nem um batedor de carteiras na cadeia. A noite passada não fora das melhores para a imprensa policialesca paraibana. A devassa foi rápida. Apurou-se o ocorrido com a velocidade pedida pela proximidade do encerramento da pauta. Logo descobriram um misterioso caso de amor ou um caso com o tráfico de drogas. Na dúvida misturaram as estórias e a manchete ficou assim mesmo: AMANTE DA RAINHA DO TRÁFICO FOI MORTO EM ATROPELAMENTO. O enterro foi dos mais concorridos do ano. Precisava ver.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
TIC-TAC
Seis horas. Salta fora da cama. Corre. Tá atrasado. Banho, roupa, café, um beijo mecânico, porta, chave. Sete e quinze. Continua atrasado. Parada, ônibus, cadeira, velha sorridente o observa, sorri, salta. Sete e quarenta e cinco. Chega atrasado. Patrão esbraveja. Dedo em riste, cara feia, voz alterada. Cabeça baixa: sorri. Balcão, velha, pedido impossível, procura, não acha velha reclama: sorri. Mais um, mesma coisa: sorri. E outro: sorri. Outro: sorri. Sorri, sorri, sorri, sorri, sorri. Almoço chega. Bate papo com amigo, fila grande: não precisa sorrir. Volta. Balcão, velhas, sorrisos. Boca da noite. Parada cheia. Espera. Ônibus chega lotado. Sobe. Paga, fica em pé, espremido, espera. Homem gordo precisa passar. Lá vem aperreio! Espera, reza, prende respiração, homem gordo passa. Aliviado, sorri. Em casa. Sapato, meia, chão frio. UFA! Mulher reclama, menino chora. Reclamam. Tevê tá alta, cabeça dói. Sai. Quarto, banho, comprimido. Fica nu. Agora é livre. Deitado, só, ri. Dorme.
sábado, 29 de novembro de 2008
As máscaras do mundo há muito já haviam caídos uma a uma. Já não creditava em coelhinho da Páscoa, Papai Noel, Bicho Papão e coisa e tal. Sabia que o mundo era áspero e que não havia espaço suficiente nele para um velho decrépito e carente de um afago. Um cheirinho no cangote que fosse já deixaria a sua vidinha um pouco melhor. Nessas oras pensava nela, sua Véia, no café com leite que cuidadosamente ela fazia para ele. Sempre tão carinhosa o deixava muito satisfeito a ponto de agradecer aos céus todas as manhãs por tê-la ao seu lado. Agora ela se fora e o deixara diante do espelho admirando a face velha e enrugada.
Lembrava do antigo ponto de cem réis, lugar que ganhou este nome devido ao preço do bonde que tinha como ponto final esta praça. Lembrava das moças. Ele vestido de soldado. Elas de vestidos longos e ar de recatas. Ia sempre que possível para lá observar e ser observado pelas distintas moças e senhoras do seu tempo. A farda de praça encantava a todas não era para menos, era dono de um belo par de olhos verdes, mais de um metro e oitenta e um corpo atlético. Mexia com todas que passavam dando piscadelas e sorrisinhos maliciosos provocando risadas e recato na maioria e de uma minoria recebia respostas mais ousadas. Não era cafajeste para fazer mal àquelas senhoritas e senhoras do seu tempo, mas bem que ficava tentado. Parte da graça dessa paquera era o ar de proibido que tinha. Na verdade no seu tempo se quisesse ir além tinha que arcar com as conseqüências dos seus atos e na época de praça não queria saber disso.
Quando queria um encontro mais íntimo com uma dama fazia o que todos os homens jovens ou não faziam. Ia para a zona do meretrício e passava a noite na gandaia. Época boa aquela onde tinha viço, força e garbo para seduzir, ser seduzido e amar até o sol raiar. Agora não se reconhecia mais. Achava que estava podre por dentro, só poderia ser esta a explicação. As costas doíam em demasia, os nervos atacados não deixavam mais as mãos e as pernas paradas, as vistas há muito já não viam o que um dia talvez tivessem visto.
Chamou Cleide, uma sobrinha, e perguntou de súbito:
- Quem é este que está aí no espelho?!
A sobrinha ficou calada sem saber o que dizer.... (intervalo comercial)
*****
No tempo de Dalva tudo na casa era certinho. Não havia no mundo mulher mais prestimosa que ela. Havia sido criada para servir aos filhos e primordialmente ao marido de uma maneira tal que homem nenhum no mundo saberia viver mais feliz longe dela. A sua mãe era uma cigana de origem espanhola e fizera de tudo para ensinar a sua filhinha querida as artes do sexo e do amor.
Aos nove fizera a sua primeira vítima. Pedro, um menininho muito ingênuo que fora seduzido por ela e passou a ser o capacho dela. Luís, Álvaro, Paulo e por último Antunes.
O praça Antunes era um metido a galanteador que vivia passeando fardado pelo ponto de cem réis. Fazia de tudo para chamar a atenção das moças presentes, conseguindo de vez em quando. Muito de vez em quando, mas muito de vez em quando mesmo. Ela o observara e notara que ele pouco percebeu os seus olhares. Viu nele aquilo tudo que fazia o tornava uma vítima em potencial. Era a solução para os seus problemas, a fachada perfeita. Seria o disfarce de mulher recatada e pura.
Não perdeu tempo em planinhos bestas e sem sentido, foi logo para o ataque. Na segunda vez que o viu sentou numa mesa próxima da dele no restaurante do Hotel Globo e foi logo tratando de chamar a atenção dele. Sempre, é claro, disfarçando para que ele achasse que ela era a descrição do recato em pessoa. Aceitou que ele pagasse o seu bolo e o seu café. Sorrindo sempre, é claro!
Casaram pouco tempo depois, pois, ela sempre insistia em apresar tudo. Não poderia perder a oportunidade de se tornar uma dama distinta como as outras. Tratou de mostrar serviço. A casa era um brinco, tudo no lugar devido. Nos primeiros meses não saiu de casa para absolutamente nada. Travestindo-se de Santa passou um bom tempo durante o início do casamento sem fazer o que tinha costume. Mas não tardou. Dalva logo aliciou um amigo de Antunes e fez da cabeça do marido um local enfeitado permanentemente. Passou a trair o marido por tudo e com quase todos. Só não traia o marido com ele mesmo devido à impossibilidade de tal ato. Mas se possível fosse ela faria sem titubear.
Para enganar o besta do marido nunca descuidou dos afazeres domésticos. Nunca descuidou de nenhuma das suas obrigações inclusive as sexuais. Não poderia destruir o seu disfarce por besteira. Sempre que possível dava uma chave de coxas nele para deixá-lo tranqüilo à beça. Ele nunca desconfiou da vida dupla da esposa, tanto que sempre ficava preocupado pelo fato dela não gostar de ter amigas e de não sair para se divertir. O fato dela sempre se dedicar a casa e aos filhos e nunca a ela o deixava chateado.
No fim da vida era a mulher mais contente do mundo. Havia dado o golpe perfeito. Foi a mais devassa das mulheres da sua geração e não havia sido descoberta e nem sido ridicularizado por seus atos. Bestas eram as outras que não sabiam viver, pensava. Ter um marido e filhos como disfarce foi à melhor coisa que fizera na vida. Pôde ter inúmeros amantes, participar de orgias e ainda ser bem tratada por todos. Morreu sorrindo um sorriso de sarcasmo.
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(retorno)
... segundos depois voltou ao normal.
- Titio! O senhor novamente com essas coisas.
- Cadê Dalva?!
- Tio, ela saiu e volta já.
Ele ficou feliz. Por um segundo achou que ela havia morrido. Cleide não quis dizer a verdade. Achava tão bonito o amor que o tio nutria pela tia.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Sempre passava por perto de uma construção cheia de homens que pudessem olhá-la com os olhos de cães no cio. Adorava pensar que fazia todos aqueles homens ficarem de pau duro por causa das suas pernas, por causa das suas nádegas, por causa dos seus seios. Adorava ter certeza que todos ficavam de pau em pé, rijo, teso, por causa da sua buceta. Adorava pensar que, esta noite, todos comeriam as suas respectivas mulheres, gordas e fétidas mulheres, pensando no seu corpo.
Pegava um táxi, sempre cuidando para que o motorista notasse a sua presença excitante. Fazia questão de mostrar a ele que estava sem calcinha, sentando atrás, mais para o meio, cuidadosamente abrindo as pernas quando percebia que o taxista a observava com um olhar ávido para tê-la. Pedia para que o motorista parasse o carro em qualquer lugar ermo e escuro, o breu tornava tudo mais sujo. Atacava o primeiro homem que lhe apetecesse agindo sempre da mesma forma. Chamava o escolhido para um canto escuro qualquer e mostrava para ele que estava sem calcinha ou mostrava os seios e dizia no ouvido dele “me come”. Quase sempre dava resultado. Na maior parte das vezes pedia para o amante da vez que a chamasse de Maria Madalena, nunca a Virgem. Gozava e ia.
Ps.: Qualquer coincidência com um famoso conto de Nelson Rodrigues não é mera coincidência.
Série: Falou o que quis ouviu o que o diabo gosta
[...] Ligo para você uma, duas, três e até quatro ou cinco vezes. Você custa a atender, quando atende (se é que quer atender), e nas poucas vezes que atende arruma logo uma desculpa esfarrapada para desligar, dizendo: “daqui a pouco ligo”. Não liga. Esse é o fato que tem me deixado mais irritado. O fato de só nos falarmos quando eu tomo a iniciativa de estabelecer uma comunicação pelos mais variados meios como cartas, cartas eletrônicas, telefonemas e mensagens para o seu celular. Já pensei até em voltar um pouco no tempo e mandar para você um pombo correio com um recado, “vá se foder”, na patinha do bichinho. Tenho certeza que não adiantaria de nada tamanho esforço em voltar a tão antiquadas tradições.[...]
Depois:
Pois é, meu caro, a relação realmente finda quando um chato não sabe a hora certa de ligar, deixar de ligar ou algo assim. Tenha com certeza por terminado qualquer relacionamento amoroso que um dia tive a ousadia de ter com você. Hoje descobri, a duras penas, que o amor é uma bosta e que esta bosta fede mais quando estamos ao lado de pessoas que complementam a fedentina.
Você não modificou a minha vida a ponto de me desmanchar em lágrimas neste momento. Você não me fez sorrir por completo. Você não me deu orgasmos suficientes. Vá se foder, mas antes passe bastante KY.
Muito obrigada pela atenção,
Abraços.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Epitáfio*
No túmulo de um poeta ruim:
“ELE AMOU”
Amou porra nenhuma, alguns dirão,
Ele odiou amar e amou odiar o que sente.
Contraditório meu amigo poeta
Saiu amando e no fim amou odiando
Adiando o fim.
***
Vontade
Escrever alguma coisa
que sirva para alguém.
Nem que seja como carta de suicídio,
nem que seja como bilhete de fim de namoro,
nem que seja como pretexto para chorar,
matar, odiar, vituperar os Deuses.
Escrever algo rasgado,
algo carregado de sentimentos,
algo piegas ao cúmulo.
Escrever risadas,
gargalhadas,
escrever coceguinhas em forma de poesia.
Olhos, bocas, narizes, pescoços, dentes sorrindo.
Descrever cenas de trepadas monumentais,
de mendigos pedindo,
de pessoas negando os pedidos.
QUE VONTADE DE PARAR!
PAREI!
Alguma coisa que sirva para alguém.
***
No fim?
O que temos?
Sete palmos é a medida.
Sete velas, sete velhas,
sete pessoas uma herança,
sete vidas desgraçadas.
Sete mil e setecentos reais é o preço da farra.
* Liguem não. Hoje a verborragia atacou e escrevi esta porção de baboseiras que acabaram de ler.